London School of Economics

O trio sorria para a foto. O sorriso do pai e da mãe era genuíno e orgulhoso. Olhavam para a lente do celular que um desconhecido do casal operava, buscando o melhor enquadramento. Mais alto que ambos e de beca, o filho também sorria. Não como os pais, mas sim com aquela expressão protocolar que talvez poderia ter sido treinada no curso que prepara e potencializa jovens a grandes cargos e grandes feitos profissionais.

Em inglês, o operador da câmera do celular sugeria que dessem dois passos à direita, para que pudesse enquadrar melhor a fachada do prédio ao fundo. O filho traduzia à sugestão aos pais, que, sem tirar o sorriso do rosto, os olhos da câmera e sem desentrelaçar os braços, obedeciam a sugestão. O sorriso do formando sumiu nesse meio tempo, só reaparecendo quando estava pronto de novo para posar para a foto.

Logo após a pequena sessão de fotos o graduando foi em direção ao seu colega e, em inglês, o chamou pelo nome e agradeceu por ter tirado a foto. Voltou aos pais, e brevemente lhes disse algo ao entregar o celular. Provavelmente deveria ter dito que voltava em breve, ou algo assim, pois logo virou às costas e, com o agora ex-fotógrafo da foto oficial da família que o esperava, rumaram para uma outra direção.

Andaram para um local onde só haviam formandos, todos devidamente vestidos com suas becas pretas. Entre vários abraços e algumas lágrimas, todos pareciam se despedir. Aquele era o último momento daquelas pessoas como um conjunto. À partir dali, o mundo cobraria de cada um deles o individualismo para construir sua própria história.

O filho que momentos antes sorria de forma protocolar se afastou para fumar um cigarro sozinho com o olhar distante. O amigo fotógrafo o viu sozinho e foi, em silêncio, também fumar o seu cigarro. O silêncio só se quebrou quando o primeiro disse quase murmurando que não queria voltar, para logo se instaurar de novo.

Após acabar o cigarro, em silêncio, olhou pela última vez o campus, os prédios ao redor e tudo que se encontrava em sua frente. Sem dúvida, passou ótimos momentos ali. Mas agora, nada daquilo lhe pertencia mais. Deu as costas e foi encontrar os pais, que permaneciam ainda com a mesma expressão e sorriso nos rostos. Sem o sorriso protocolar de momentos antes e sem virar, ele caminhou deixando tudo aquilo para trás.

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Cabo da Roca

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O ponto mais ocidental da Europa Continental fica em um local a 40 km de Lisboa. Além de um farol, um monumento com uma placa com uma frase de Camões,  uma loja com preços abusivos e (sempre) uma infinidade de turistas, nada mais há no local. Entretanto, a vista do penhasco e o mar que parece não ter fim traz certa beleza poética ao lugar.

Uma pessoa que estava por lá dizia ser possível, caso você se concentre por muito tempo, ver a Estátua da Liberdade, em Nova York, que está mais ou menos em linha reta com o local em uma vista superficial pelo mapa mundi. Além da concentração era necessário também, no mínimo, ingerir uma garrafa inteira de um vinho português.

Sozinho, depois de contemplar tudo aquilo que o local me oferecia, comecei a observar os turistas fazendo poses e selfies sem parar; ao lado da placa com os dizeres de Camões sobre o local; com o mar ou o farol ao fundo. Haviam grupos de várias nacionalidades, apesar de os chineses (mais uma vez) estarem em vantagem numérica.

Todas essas fotos e essas pessoas só se encontravam naquele local apenas por sua localização geográfica. Caso houvesse outro ponto no continente europeu que fosse mais ocidental que aquele, talvez ninguém daria muita bola para o Cabo da Roca. De toda forma, estávamos lá silenciosos ouvindo o mar e muitos (pelo menos eu) imaginavam no que acreditavam os portugueses um pouco antes à época de Camões, não sabendo o que esperar do além-mar.

A imensidão daquele azul assustava. Nada mais parecia poder surgir dali. Mas, de alguma forma, alguém resolveu explorar além daquele ponto onde acabava a terra. E permitiu que séculos depois a piada com a estátua de Nova York fosse possível.

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“Aqui..

Onde a terra se acaba

E o Mar Começa”

Essa era a frase de Camões que estava cunhada no monumento. Me fez pensar na viagem e nas tormentas que se deveria passar até chegar ao novo. Muitas vezes sem saber se ele existe.

Porto

Todos que vão para o Porto acreditam que a Ponte D. Luiz I, além da ponte D. Maria Pia são obras de Gustave Eiffel, o mesmo da torre Eiffel, em Paris. Estão todos enganados. Pelo menos em parte.

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A ponte D. Maria Pia foi realmente construída pelo escritório de Eiffel. Entretanto, todo seu projeto foi feito por um de seus alunos, o belga Seyrig. Eiffel só pisou no Porto na inauguração e ganhou todos os louros pela bela ponte.

Entretanto, alguns anos mais tarde, uma nova ponte precisava ser construída e um concurso fora lançado. À essa época, Seyrig já havia saído do escritório de Eiffel e tinha o seu próprio, na Bélgica. Mestre e aluno concorreram para fazer a ponte, tendo ganho o aluno, que, à época, construiu a maior estrutura metálica do mundo.

Por mais interessante que seja essa história, ainda hoje muitos conhecem a ponte por ser da mesma pessoa que fez a Torre Eiffel, em Paris, para tragédia do aprendiz, que mesmo tendo vencido o mestre no concurso sempre ficará à sua sombra.O mais engraçado é que a torre Eiffel fora construída para ser uma estrutura temporária, feita às pressas apenas para ser a maior construção metálica do mundo, superando a ponte do seu aprendiz no Porto.

Ou seja, a existência do monumento mais visitado do mundo atualmente está diretamente correlacionada com uma ponte no Porto que é erroneamente conhecida por ser obra do mesmo criador da famosa torre de Paris. Era o que pensava enquanto o guia falava, lembrando de várias correlações inusitadas e talvez errôneas que eu já fizera.

Lousado

Se não fosse uma baldeação e o intervalo de 2 horas entre os trens, nunca teria interesse nenhum por Lousado, uma pequena aldeia do concelho de Vila Nova de Famalicão que possuí 4 mil habitantes, bem ao norte de Portugal, onde se faz a conexão para quem viaja de Guimarães para Braga.

Sem título

A princípio não imaginava que teria uma parada tão longa pela frente. Com um pouco de desânimo, fui procurar um café dentro da estação. O único estabelecimento que lá havia estava fechado, o que me fez sair  pela porta e andar um pouco.

Não sabia direito para onde ir – não haviam também muitos caminhos para se tomar – e resolvi caminhar e ver o que aquela pequena cidadela teria a me oferecer.

Era por volta de uma hora da tarde e não havia ninguém na rua. Poucos carros passavam. Suspeitava que eram para buscar ou deixar alguém na estação, pois nada mais havia onde eu estava que não fosse residências. Até que, por acaso, entrei em uma rua que parecia ser mais movimentada. Depois de 10 minutos silenciosos consegui finalmente ouvir vozes.

Logo vi um café. Era grande, porém bem simples. Em uma TV passava um jogo de um time sub-20 do Porto. Na parte de fora, adolescentes com uniformes escolares fumavam e riam. Logo vi que havia uma escola ao lado, uma escola técnica. Parecia ser a única deste tipo na região.

Entrei e pedi um café. Logo após isso, com um pouco de estranhamento, a atende me perguntou de onde eu era e o que fazia em Lousado. Não saberia responder à pergunta de outra forma senão com absoluta sinceridade:

– Bom, disse um pouco sem graça, Na verdade estava em Guimarães e estou indo para Braga.

-Sim, pá. Já estava a imaginar. Mas o que fazes aqui, no centro?

-Bom, meu trem ia demorar um pouco para chegar. Precisava tomar um café e o café da estação estava fechado.

A conversa não se estendeu muito, pois logo chegou uma senhora com uma filha pequena e pediu algo que já não ouvi, e nem me interessei muito para.

Peguei o meu café e fui para o lado de fora para tomá-lo e fumar um cigarro, igual aos adolescentes que ali estavam. Acredito estávamos todos esperando para sair de Lousado. Para minha sorte era meu trem que sairia já em menos de uma hora.

Braga

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Era difícil escolher entre tantos cafés em qual entrar naquele fim de tarde, mas que já parecia noite por ser inverno. A fome e a vontade de beber uma cerveja já se faziam notar. Era um prêmio razoável após tanto andar durante o dia.

Escolho um café relativamente grande. Ele está cheio e a única mesa disponível é na parte de fora, na rua. Gosto. Apesar de estar frio, não faz uma temperatura gelada. Além disso, alguns aquecedores acessos deixam a temperatura mais amena.

Peço uma Superbock e peço a sugestão de uma simpática garçonete sobre o que deveria comer. Ela me sugere algo que é a especialidade da casa e da cidade. Aceito. Ela logo me pergunta de que parte do Brasil eu sou. Por mais português meu nome possa parecer, carrego em mim o atestado da minha nacionalidade ao falar neste lado do mundo.

Enquanto dou um gole na cerveja observo a mesa do lado. Braga é uma cidade universitária e uma jovem portuguesa está na mesa ao lado com pessoas que parecem seus pais. Foram pais jovens, a julgar pela idade da suposta filha. E parece que não são de lá. A filha mostra uma grande naturalidade com este café, sabendo o que quer sem ao menos abrir o cardápio que está lá, fechado e intocável à sua frente.

Logo me torno um ouvinte da conversa da mesa vizinha. É uma (boa?) consequência de quando se viaja sozinho.

Os pais perguntam de algumas pessoas. Suspeito que eles não conheçam e são amigos que a filha fez durante a faculdade e que tanto fala quando se comunicam. Eles têm o português carregado pelo forte sotaque do norte de Portugal, o que torna difícil compreender todas as palavras da frase sendo um ouvinte não convidado.

A filha parece feliz com a nova vida e empolgada com a Universidade. Não para de contar casos e fatos de sua vida letiva e social por lá. Os pais ouvem e pouco falam.

Eles tomam vinho. Parece que em breve vão voltar juntos à cidade natal. Estamos no meio de dezembro, logo devem passar juntos as festividades.

Após comer e terminar minha segunda cerveja peço a conta, pago e me preparo para ir. Me livro da condição de ouvinte não requisitado me levanto e vou embora sem olhar para trás. Exatamente como esta menina já fez uma vez e deverá fazer de novo em aproximadamente 20 dias, quando acabarão as suas curtas férias de inverno.